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O que fazer com roupas usadas

Quando fiz a minha primeira “limpa” no armário desde que cheguei aqui nos Estados Unidos, estava disposta a doar as roupas que não usava mais para pessoas em estado de necessidade, coisa que fazemos comumente no Brasil. Mas para quem? Fui pesquisar e fiquei um pouco desapontada em não encontrar tão facilmente locais que coletassem doações para repassar de forma gratuita aos necessitados. A grande maioria dos locais, como igrejas e lojas de itens usados (exemplo: Goodwill ou Purple Heart), receberia as doações, faria uma boa seleção e colocaria os produtos à venda por um preço mais ou menos simbólico. Achei um absurdo. “Mas no Brasil fazemos diferente! Ajudamos a quem precisa de forma gratuita!”, meio que tomando por base a minha experiência pessoal e julgando que os brasileiros têm bom coração e os  americanos são gananciosos. Eu estava errada, obviamente.

Primeiro que aqui há locais que ajudam as pessoas em estado de necessidade extrema, sim. São poucos (especialmente se comparado ao Brasil), mas existem. Mas se você pensar bem, a pobreza americana não é quase nada comparada à pobreza brasileira. Pobre americano é diferente do pobre brasileiro. Para ter uma ideia, vejamos como se divide a sociedade americana, com informações do Investopedia:

  • Classe alta: 5% lares americanos têm renda de mais que $150.000 dólares ao ano, e 1% têm renda maior que $250.000 dólares ao ano (todos são considerados classe alta);
  • Classe média alta: com renda superior a $100.000 dólares ao ano, normalmente com nível de educação de Mestrado para cima;
  • Classe média baixa: com renda entre $32.500 e $60.000 dólares ao ano, normalmente com nível superior completo (faculdade);
  • Classe média trabalhadora: com renda entre $23.050 e $32.500 dólares ao ano, podem até ter frequentado a faculdade, mas têm educação técnica e possuem mais de um emprego. Exemplos: policial, motorista de caminhão e trabalhador de fábrica;
  • Classe baixa (pobreza): vivem em nível de pobreza as famílias com renda entre $18.000 e $23.050 dólares ao ano; está incluída nesta classe qualquer família americana abaixo da linha de pobreza, ou seja, que não ganha dinheiro suficiente para satisfazer necessidades básicas, tais como alimentos, roupas e abrigo (estima-se que 15% dos americanos vivem abaixo da linha da pobreza).

Já no Brasil, segundo dados que encontrei no G1, o “pobre, mas não extremamente pobre” tem renda familiar mensal de $1.113,00 reais, enquanto que o “extremamente pobre” tem renda familiar mensal de $854,00 reais. O pobre americano ainda tem maior poder de compra que o pobre brasileiro.

“Ok, então você quer dizer que o pobre americano tem condições de comprar roupas usadas?”. Dependendo dos valores das roupas, sim. É possível encontrá-las por alguns centavos a peça em diversas lojas por aqui e também nos “garage sales” que as famílias fazem em seus quintais ou garagens para vender itens usados.

“Tá, mas cobrar menos de 1 dólar por peça? Por que não doa logo de uma vez? Por que cobrar mixaria?”. Vejo isso de uma forma simples: quem paga (mesmo que centavos ou 1 dólar), teve que suar para ganhar aquele dinheiro e vai dar mais valor à peça comprada do que se não tivesse que ter pago por ela. Em contrapartida, o dinheiro é revertido para que a loja de itens usados pague seus funcionários e suas instalações para continuar atendendo à população que só tem condições de comprar itens extremamente baratos. Da mesma forma, a igreja que faz bazares de produtos usados utiliza o dinheiro arrecadado em suas instalações e obras assistenciais. Por sua vez, a família que vende seus itens no quintal ou na garagem receberá algum dinheiro de volta gasto com o determinado item, que será reaplicado em suas próprias necessidades.

Ressalto que as roupas normalmente devem estar em bom estado de conservação para serem comercializadas, ou seja, com boa aparência, sem manchas, rasgos e furos de qualquer tamanho. Caso contrário, no momento da triagem das roupas, as instituições enviam para a reciclagem os itens que não serão considerados para venda.

O interessante aqui é que não somente as pessoas pobres compram roupas usadas; a classe média também é ávida consumidora neste mercado, principalmente em se tratando de roupas de crianças. É normal para a mãe americana média comprar roupas e brinquedos usados para bebês e crianças por uma série de motivos: primeiro porque eles crescem muito rápido, perdem roupas rapidamente e deixam de brincar com os  zilhões de brinquedos que têm; segundo, porque as famílias americanas são numerosas e dinheiro não nasce em árvore, então há a necessidade de ser bem pé no chão e viver com os meios que se tem.

Da mesma forma que a classe média compra, ela também vende na lojinha improvisada no quintal ou na garagem. É um caminho de mão dupla: enquanto ajuda quem não pode pagar muito caro nas roupas, você faz um dinheirinho extra. “Nossa, mas é muita mixaria! Prefiro doar do que vender cada peça por 1, 2 ou 3 dólares”. Ok, respeito a sua opinião, mas te conto que hoje vendi 24 peças (entre poucas novas e muitas usadas) por um total de 80 dólares (foto abaixo). Se levarmos em consideração que o salário mínimo/hora aqui no estado da Virginia (e em grande parte dos EUA) é $7.25 dólares por hora, acabei de ganhar o correspondente a 11 horas de trabalho em apenas 1 minuto, o minuto que gastei abrindo a porta para a mãe que veio buscar as minhas roupas de bebê . A venda foi intermediada pela plataforma online Varage Sale (uma “garage sale” online sobre a qual já falei aqui outro dia – clique aqui para ler o post). Eu fiquei feliz por ter recuperado parte do dinheiro que gastei com as roupas (e por poder reinvesti-lo numa poupança para os meus filhos) e ela ficou feliz por ter levado para casa roupas de qualidade, bem cuidadas e com pouco tempo de uso, por um preço hiper barato. É bem possível que, quando não servirem mais no filho dela, acabará por revender as peças e reaver o dinheiro gasto. A classe média americana é assim mesmo; vive como classe média. No Brasil, tenho a triste impressão de que a classe média está sempre buscando viver uma realidade que não é dela, mas sim, da classe imediatamente superior a ela. Aqui, não se tem vergonha de comprar roupas usadas; na verdade, isso é visto como uma coisa boa. No Brasil, pelo menos dentre as pessoas que conheço, não me lembro de ninguém que tenha feito enxoval de roupas usadas.

Roupas usadas

Peças que vendi hoje por $80 dólares, a maioria itens usados, porém, em ótima condição, lavados, passados, dobrados e bem guardadinhos em sacos plásticos.

“Ué, mas então você estava certa quando disse no início que chegou a pensar que o americano era ganancioso. As pessoas nem pensam em doar? Só querem saber de vender?”. É claro que não. Muitas vezes a venda é uma primeira opção para muita gente, é verdade. Porém, já vi diversos anúncios assim: “Último dia para me fazer uma proposta e levar meus produtos. Se eu não vende-los até hoje à noite, amanhã cedo os levarei para o Mercy Mall ou Goodwill“. É mais ou menos assim: não conheço ninguém em necessidade imediata; vou tentar vender; se não der certo ou se eu não vender tudo, dôo para a instituição. Isso é o que tenho visto da maioria das pessoas, mas é claro que há aqueles que decidem doar direto, sem nem tentar vender antes.

E também tem o seguinte: aqui as pessoas são muito unidas, há um senso de comunidade bem forte. Se aparecer alguém em situação de emergência precisando de algo para vestir, quem tiver roupas usadas paradas num canto do armário nem vai pensar em vende-las, vai doar imediatamente. O americano é solidário, pois ele sabe que hoje está acontecendo com você, mas amanhã pode ser com ele. Por exemplo, uma casa que pega fogo e a família perde TUDO (e não tem seguro residencial); a comunidade toda se mobiliza para ajudar, com doações de alimentos, roupas, eletrodomésticos, móveis e tudo o mais que você possa imaginar. Até comida pronta eles levam na porta de casa da família. É uma mão que eles dão para que a família se levante da queda e possa recomeçar.

No começo deste ano, uma mãe faleceu num acidente de carro a 15 minutos da minha casa, deixando o marido e duas crianças pequenas. O pai das crianças fazia faculdade em meio período e no outro meio período trabalhava. Com o falecimento da esposa, a renda da família desabou, pois ela ajudava no sustento da casa. Para piorar, os gastos com o funeral são exorbitantes e ele não tinha condições de cuidar de tudo sozinho. Ele perdeu o chão. A comunidade se sensibilizou e se mobilizou. Iniciaram uma vaquinha virtual e também começaram a levar doações na casa da família. Eu mesma fui até a casa deles, sem ao menos conhece-los, e deixei duas caixas com roupas, brinquedos e comida para as crianças. Aconteceu com eles, mas poderia ter acontecido com qualquer um. “Façamos aos outros o que gostaríamos que fizessem conosco”, pensei.

Como falei, o americano é solidário, mas não é bobo. No país da meritocracia, as pessoas lutam, trabalham, suam; aqui se acredita que todos são iguais e têm condições de lutar da mesma forma, pois as oportunidades são muitas. Coitadinho não existe; existe, sim, gente preguiçosa. Só permanece em condição de necessidade quem quer se aproveitar do sistema e das pessoas. E gente preguiçosa, malandra e cheia de “jeitinhos” o americano não perdoa! Se há indícios de gente querendo se aproveitar da bondade alheia, logo logo o mal é cortado pela raiz. Porém, se estamos falando de uma necessidade real e comprovada, não são medidos esforços para estender-se a mão ao próximo.

E, sim, existem locais dedicados a cuidar daqueles em situação de necessidade extrema. Aqui em Richmond há vários, a destacar o Mercy Mall, que recebe doações e as distribui de acordo com a necessidade das pessoas que vão até lá. É super organizado e bem justo para que um não receba mais que outro. Algumas regras: a pessoa deve estar realmente em estado de necessidade, as visitas são limitadas a 1 visita a cada 30 dias, e é possível escolher 2 conjuntos de roupas e 1 par de sapatos por pessoa, sendo altamente recomendado que se experimente a roupa e o calçado nos provadores para ter certeza do tamanho. O Mercy Mall atende pessoas que estão sem ter onde morar, que sofreram desastres naturais, incêndios domésticos, violência doméstica, problemas com percevejos e outras situações de desespero, e têm quase nada. Acompanho o trabalho deles a fim de me manter informada sobre as necessidades da instituição e ajudar conforme puder. Outros locais em Richmond que me foram passados por algumas mamães aqui da cidade:

De forma geral, hoje em dia faço assim: roupas minhas e do meu marido e itens de casa eu dôo para o Military Order of Purple Heart (dedicado, principalmente, aos veteranos e suas famílias — e meu marido é veterano), e eles vêm buscar as doações aqui em casa; roupas das crianças eu vendo e o dinheiro é revertido numa poupança para elas mesmas; e sempre que ouço sobre pessoas da comunidade em necessidade, ou que o Mercy Mall precisa disso ou daquilo, verifico a situação e ajudo de todas as maneiras que puder. Lembrando que nos Estados Unidos as contribuições a instituições de caridade são incentivadas na hora de preencher a declaração do imposto de renda, pois podem reduzir a quantia de imposto devido.

Você mora nos Estados Unidos? Como é na sua cidade? O que faz com suas roupas usadas? Escreva nos comentários. Adoraria saber!

Beijos, Carol

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2 Comments

  • Reply
    Seguro-saúde nos Estados Unidos | Descobri a América!
    04/05/2016 at 12:54

    […] O que fazer com roupas usadas […]

  • Reply
    Roberta Serpa
    19/02/2017 at 20:49

    Eu na Florida sempre doei para o Goodwill e ja comprei roupas nunca usadas la com etiqueta! Adoro um brecho e eles ainda empregam pessoas com deficiência

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