Dicas para quem mora nos EUA Quanto custa

Seguro-saúde nos Estados Unidos

Muitos me perguntam como funciona o sistema de saúde nos Estados Unidos, quanto custa um “plano de saúde”, se tenho opções gratuitas de atendimento, e assim por diante, e eu ainda não havia escrito nada sobre isso. Para falar a verdade, o sistema de saúde americano é um assunto super complexo e, inclusive, chato. Além de tudo, descobri que alguns brasileiros morando por aqui já escreveram a respeito, então não vejo necessidade de repetição (vou passar alguns links para vocês). Desta forma, decidi me ater apenas à minha experiência pessoal para que vocês tenham um exemplo real de como as coisas funcionam por aqui. Let’s start.

–> Sugiro que faça a leitura integral deste texto, pois as informações são complementares.

Pontos básicos:

  • É obrigatório ter seguro-saúde nos Estados Unidos. Se você não tiver, deverá pagar uma multa de 2.5% da renda familiar ou $685 dólares por adulto e $347.50 por criança (o que for maior). Leia mais neste link.
  • Algumas famílias com baixa renda têm acesso a um plano de saúde do governo chamado Medicaid. Não se trata de um sistema de saúde, como é o SUS no Brasil, com seus próprios médicos e instalações, oferecendo serviços gratuitos; nos Estados Unidos não existe um sistema de atendimento gratuito à população. OBS: quando falamos em população de baixa renda nos EUA tenha em mente que o pobre americano é comparativamente “rico” em relação ao pobre brasileiro (veja no post “O que fazer com roupas usadas“).
  • Existe seguro-saúde com cobertura de 100% das despesas médicas? Sim, existe, mas é extremamente caro e a maioria da população não tem condições de pagar um plano desses.
  • As pessoas EVITAM ir a médicos e, principalmente, a pronto-socorros e hospitais, por qualquer probleminha de saúde, mesmo tendo seguro, pois os valores a serem pagos geralmente são bem altos. Por isso posso dizer que a medicina acaba sendo curativa, e não preventiva. Para mim, é um ponto negativo de peso da situação da saúde aqui nos Estados Unidos. O pior de tudo é que as pessoas acabam de automedicando, o que também não é legal.
  • Se você não tiver seguro e precisar, por exemplo, ir ao pronto-socorro devido a uma emergência, poderá ir sem problemas e ter o mesmo atendimento de qualquer pessoa que tenha seguro. A diferença está no fato de que depois a conta virá pelo correio — e bem salgada. Você terá a opção de negociar a dívida e parcelar, se for o caso; mas a dívida só deixará de existir quando você a quitar. Portanto você é atendido normalmente, mas ficará devendo.
  • Despesas médicas e hospitalares são extremamente caras. Quando foi feita a minha cesária, somente a conta do hospital foi de mais de 22 mil dólares. Em outra ocasião, quando acidentalmente cortei o dedo com uma faca (corte pequeno) e fui ao pronto-socorro (E.R.), a conta foi de 1.400 dólares. Na época, eu não tinha seguro-saúde e tive que pagar do próprio bolso. Eu também não sabia que em casos de “pequena urgência”, nunca devemos ir ao pronto-socorro, mas sim a clínicas especializadas (a não ser que não nos importemos em pagar uma conta exorbitante como essa que recebi do E.R.). Ao final deste texto você poderá ler mais sobre o que fazer em casos de emergência.

Healthcare.gov:

O seguro-saúde da minha família é contratado individualmente (não é fornecido pelo empregador do meu marido), através do portal Healthcare.gov do governo americano, num “mercado” chamado Marketplace.  Se a empresa onde você trabalha te oferecer seguro-saúde, as suas opções de seguradora e planos estão limitadas ao que o seu empregador tiver previamente selecionado pra você. Caso não esteja satisfeito com as opções oferecidas pelo empregador, você pode usar o Marketplace e comprar um seguro individual. Ao tomar essa decisão, leve em conta de que o seu empregador provavelmente seria responsável por pagar uma parte do Premium (valor mensal do seguro), enquanto você pagaria apenas a outra parte. Já ao contratar individualmente, você é responsável pelo pagamento integral.

Pois bem. No Marketplace, você consegue visualizar algumas opções de seguro para você contratar de forma individual (sem empregador). Essas opções vão levar em conta o seu perfil e dos membros da sua família. Também nos mostra quais os tipos de desconto podemos conseguir e que tipos de subsídios podemos pedir ao governo federal. Essas aquisições, ou seja, os contratos de seguro, devem ser fechadas ANUALMENTE, geralmente até 15 de dezembro de cada ano (mas há exceções).

Então, mesmo que você já tenha seguro, terá que entrar no portal para nova contratação, pois esta é anual. O que pode acontecer é: você tem um seguro X e gosta dele, não quer mudar de seguro no ano seguinte; eles vão te mandar uma cartinha dizendo “Fulano, no próximo ano o seu seguro será reajustado e passará a custar Y”. Se você estiver satisfeito, entra no site do Healthcare.gov e renova; senão, no portal mesmo você escolhe uma nova opção de seguro que seja melhor para o seu bolso. De qualquer forma, normalmente em novembro e dezembro (via de regra), você precisa se manifestar sobre o que pretende ter como seguro-saúde para o ano que se inicia. Se não contratar seguro, deverá pagar uma multa, conforme mencionado mais acima.

Como o seguro funciona:

Para saber como funciona, é necessário entender o que significam Premium, Deductible, Co-pay, Co-insurance e Out-of-Pocket Maximum.

  • Premium:

É o valor mensal que você paga pela contratação do seguro. No ano de 2016, estamos pagando $850 dólares mensais por um seguro nível Prata (inclui assistência odontológica infantil limitada). Cobre eu, meu marido e nossos dois filhos. Na prática, é um dinheiro “perdido”, que não é aplicado na contagem do Deductible, Co-pay, Co-insurance nem Out-of-Pocket Maximum. Mesmo que você não use o seguro, deve pagar a quantia.

  • Deductible:

É a franquia do seguro. No meu caso, corresponde a US$ 2,600 por pessoa e US$ 5,200 para a família toda. Para que a seguradora comece a cobrir parcial ou totalmente as minhas despesas, preciso pagar, no mínimo, o valor dessa franquia.

  • Co-pay:

É a quantia fixa que você paga por consultas médicas. Um exemplo comum de Co-pay é $20 dólares por consulta.

  • Co-insurance:

Depois que você paga o valor da franquia, o seguro normalmente ainda não vai pagar todas as suas despesas, ou seja, você ainda será responsável por uma porcentagem delas. Então o Co-insurance é a porcentagem fixa que você paga sobre o custo do tratamento médico, uma vez que você atingiu o valor da franquia (Deductible). No meu caso, é 20%. Na prática, isso quer dizer que, se eu tiver que fazer um exame que custe $1,000, a seguradora será responsável por $800 e eu por $200. Pegadinha: para isso, você é obrigado a usar os hospitais e médicos da rede de conveniados do seguro. Caso você opte por usar serviços de fora, deverá pagar do seu próprio bolso.

  • Out-of-Pocket Maximum:

É a quantia máxima que você vai pagar de despesas do próprio bolso num determinado ano. Entram nessa conta o valor do Deductible, Co-pay e Co-insurance. Premiums não são contabilizados para fins de Out-of-Pocket Maximum. Vou exemplificar: no meu caso, nosso limite de despesa de desembolso é quase $7 mil por pessoa e $14 mil para a família toda. Se eu, sozinha, tiver vários problemas de saúde no decorrer do ano e chegar a gastar $7 mil do próprio bolso (contando Deductible e Co-insurance), é muito provável que a partir daí a seguradora passe a se responsabilizar por 100% das minhas despesas (contanto que sejam usados hospitais e médicos da rede de conveniados). Apesar disso, continuarei sendo responsável pelo pagamento dos Premiums todos os meses, bem como dos Co-pays. A pegadinha está aqui: supomos que em 2016 eu gaste 7 mil dólares de janeiro a dezembro, sendo que em janeiro de 2017 terei que passar por uma cirurgia; infelizmente não poderei contar com a seguradora para pagar as despesas da cirurgia (apesar de eu ter atingido o valor do Out-of-Pocket Maximum em 2016), pois quando o ano vira, esse cálculo zera. Para fins de 2017, não interessa o que paguei em 2016 e terei que pagar os $7 mil dólares tudo de novo caso eu deseje que o seguro cubra as minhas despesas de forma integral.

Como escolher um seguro-saúde:

O portal do Healthcare.gov (conhecido como Marketplace) é muito feliz nas explicações que faz quando você está lá comprando o seu seguro.

Há 4 categorias a escolher: bronze, prata, ouro, platina. Essas categorias indicam como você e o seu seguro dividem os custos e não têm nada a ver com a qualidade do tratamento médico.

O portal te dará várias opções de planos conforme o seu perfil e você pode selecionar alguns e fazer comparações. Perceberá que:

  • quando o Premium cobrado tem valor baixo, o Deductible e Out-of-Pocket Maximum serão valores altos
  • quando o Premium cobrado tem valor alto, o Deductible e Out-of-Pocket Maximum serão valores baixos

Você deve pensar no custo total para o seu bolso: Premium (que você paga mesmo sem usar o seguro), mais Out-of-Pocket Maximum (que inclui o Deductible), sendo que estes últimos só ocorrem se você chegar a ter tratamento médico e usar o seguro. Quando estiver escolhendo o seu plano, é importante pensar nos dois tipos de custo somados.

Você também deve se atentar para o tipo de plano e rede de conveniados que irá contratar. Eles têm as seguintes siglas abaixo e alguns permitem que você use qualquer médico ou hospital, enquanto outros limitam as suas escolhas ou te cobram adicionais por você usar profissionais fora da rede de conveniados. Tipos de plano e redes:

  • HMO (Health Maintenance Organization) Com um plano de HMO, você deve escolher um médico primário conhecido por Primary Care Physician – PCP (nada mais que um médico clínico-geral), a partir de uma rede local de prestadores de serviços de saúde, que fará o seu encaminhamento para especialistas ou hospitais da rede de conveniados, quando necessário. Na prática, não pode consultar com um especialista sem que haja o encaminhamento feito pelo médico primário.
  • PPO (Preferred Provider Organization) — Um plano de PPO oferece uma rede de prestadores de serviços de saúde e você é livre para escolher médicos, especialistas e hospitais de dentro ou fora da rede, sem necessidade de encaminhamento, mesmo se estiver viajando para outro estado que não o seu. Tenha em mente, contudo, que suas despesas médicas de desembolso são mais baixas quando você escolhe um prestador de serviço de dentro da rede.
  • POS (Point of Service) — Um tipo de plano em que você paga menos se você usar médicos, hospitais e outros prestadores de serviços de saúde que pertencem à rede do plano. Planos POS também exigem que você obtenha um encaminhamento do seu médico primário (PCP) para poder ver um especialista.
  • EPO (Exclusive Provider Organization) — Um plano de assistência gerenciada onde os serviços estão cobertos apenas se você usar os serviços de médicos, especialistas ou hospitais que façam parte da rede do plano (exceto em caso de emergência).

O que fazer numa situação de emergência:

Antes de sair correndo para o pronto-socorro (E.R.) numa situação de emergência, avalie se não é o caso de  utilizar um “Urgent Care Center” ou “Retail health clinic” ou “walk-in doctor’s office”.

  • “E.R.” — Emergency Room ou pronto-socorro. Costumamos dizer que só deve ser usado em “caso de vida ou morte”, pois os valores que o E.R. (hospitais, em geral) cobram são altíssimos.
  • “Urgent Care Center” — Geralmente são clínicas que fazem atendimento de raio-x, exames de laboratório, dão pontos… ou seja, coisas que não são tão urgentes e “podem esperar”.
  • “Retail health clinic” e “walk-in doctor’s office” — São clínicas que cuidam de alergias menores, coceiras e irritações. Quando o seu médico não está disponível, você pode se dirigir a uma dessas clínicas, sem que tenha que marcar consulta antes.

Veja no diretório do site da sua seguradora quais são os endereços das clínicas com cobertura para o seu plano de saúde específico.

Saiba mais sobre a Saúde nos EUA:

Caso queira entender melhor como funciona a Saúde nos Estados Unidos, indico os seguintes sites (que não refletem, necessariamente, a minha opinião):

Exceções:

Se você procurar, vai acabar encontrando algum tipo de assistência gratuita local na sua cidade ou estado, inclusive fornecidas por ONGs. Vejam abaixo alguns desses exemplos, que são absolutas exceções ao que explicitamos acima.

 

saúde

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17 Comments

  • Reply
    O que saber antes de se mudar para os EUA | Descobri a América!
    21/05/2016 at 16:06

    […] Seguro-saúde nos Estados Unidos […]

  • Reply
    Raquel
    11/01/2017 at 14:30

    Olá,

    Gostaria de saber se o plano dá direito à consultas de rotina em médicos como ginecologistas (para exames anuais). Essas consultas também são abatidas da franquia? Além disso, qual é o valor (em média) de uma consulta destas.
    E mais uma coisa, meu pai tem doença renal crônica, e deve fazer acompanhamento (corre o risco de ter que fazer diálise ou até mesmo transplante). Esses tratamentos devem ser bem caros, mas todo ano zera ao out-pocket money, então, todo ano ele teria que pagar no mínimo esses valores; antes de o sistema cobrir parte dos custos (Premium + deductible + co-pay + co-insurance) somente para continuar um tratamento?

    • Reply
      Carol Mendes
      22/03/2017 at 14:36

      Oi, Raquel!
      Os planos de saúde normalmente cobrem consultas ginecológicas de rotina sim. O que acontece é que às vezes você tem que pagar um co-pay. Já passei por alguns ginecologistas e o preço que paguei em cada consulta foi de $20 a $30. Essa quantia é deduzida do Out-Of-Pocket-Maximum, mas geralmente não é muito significativa quando comparada às outras despesas médicas possíveis.
      Quanto ao fato de zerar o valor pago na virada do ano, por enquanto é assim que funciona. Trump pretende alterar o Obamacare em benefício dos americanos, então fiquemos de olho.
      Beijos.

  • Reply
    sabrina huss
    17/03/2017 at 23:21

    olá tudo bom? Gostaria de saber… existe restrição para doença pré existente? Queria fazer intercambio nos EUA, mas sou renal cronica e faço hemodiálise! Será que consigo? Obrigada

  • Reply
    Lorenna Correia
    18/04/2017 at 21:00

    Oi, tudo bem?
    Eu nasci nos Estados Unidos, porém morei sempre no Brasil.
    Agora quero engravidar e ganhar bebê nos EUA. Gostaria de saber quanto tempo antes de engravidar devo contratar um plano de saúde e qual seria o melhor. Quero fazer cesárea.
    Desde já agradeço.
    Gostei muito do artigo.
    Obrigada

    • Reply
      Carol Mendes
      19/04/2017 at 22:56

      Oi, Lorenna!
      Você deve contratar um plano de saúde assim que chegar aqui. Quanto ao “melhor”, não tem. Dentro do seu perfil haverá algumas opções e você escolherá de acordo com as suas necessidades e bolso.
      Já sobre fazer cesária, aqui não é uma opção, ou seja, não é eletivo como no Brasil. A regra é parto normal e cesária só se faz por necessidade.
      Boa sorte!
      Beijos.

  • Reply
    Janielle
    16/05/2017 at 20:05

    Olá gostei muito do seu blog
    Assuntos que me interessa ,estou procurando um plano para mim aqui em Albany NY
    Estou tentando engravidar e queria alguma pessoa no plano médico (a) brasileira pra que eu entenda tudo , não sou boa no inglês ainda
    Desde já espero ansiosamente sua resposta 😘

  • Reply
    Keila
    28/05/2017 at 10:49

    Oi, bom dia! É possível fazer o seguro de saúde já grávida? Teria cobertura? E se não for possível, como seria o gasto com o parto sem seguro?

    • Reply
      Carol Mendes
      03/06/2017 at 23:25

      Até o que sei, é possível sim. “Doenças” ou “condições” preexistentes não são mais impeditivos na contratação e cobertura de um plano de saúde. Quanto a gastos com parto sem seguro, é de quebrar as pernas! A conta de um parto normal de uma amiga lá em Miami saiu por 40 mil dólares! Como ela tinha seguro, não pagou nem perto disso, mas a conta real (se fosse sem seguro) era nesse valor!

  • Reply
    Ingrid
    13/07/2017 at 00:13

    Olá, parabéns pelo excelente site!
    Você saberia me dizer qual é esse plano que oferece cobertura 100% ?
    Super obrigada.

  • Reply
    Eliane Olívia de Oliveira
    18/07/2017 at 20:35

    Carol, parabéns amei seu blog tem muitas informações importantes. Preciso fazer uma pergunta: Existe algum Plano ou Seguro Saude que eu possa fazer nos Estados Unidos e usar no Hospital Sírio Libanês aqui no Brasil?

    • Reply
      Carol Mendes
      24/09/2017 at 00:32

      Os planos daqui, até o que sei, são para uso aqui.
      Abs

  • Reply
    Jesa
    28/10/2017 at 13:55

    Olá, estarei de 30 semanas na data que viajarei pros EUA. Os seguros viagem só existem pra gestantes até 28 semanas. Qto custa um atendimento emergencial pra gestante.?

    • Reply
      Carol Mendes
      02/11/2017 at 20:11

      Aqui tudo é ABSURDAMENTE caro. É um risco grande e às vezes vale mais a pena mudar a data da viagem do que pagar as contas de hospitais e pronto-socorros daqui. Além disso, leia sobre a minha experiência viajando com 33 semanas.

      http://descobriaamerica.com/2015/08/viagem-internacional-gravida-de-8-meses-e-sozinha/

      A minha história te dará uma ideia de todos os imprevistos que possam ocorrer e te estressar. Vale mesmo a pena? A minha opinião é de que, viajar quanto antes, melhor. Se puder mudar a data, faça. Beijos!

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