Histórias e mais histórias

Corrente do Bem

Hoje aconteceu algo bem inusitado (que vai culminar numa corrente do bem), mais uma daquelas histórias sobre fé na humanidade que de vez em quando conto aqui e já estou colecionando.

Ando muito cansada. Há noites em que durmo pouquíssimas horas. Christian, meu filho mais velho começou a ter medo do escuro. Diz que, quando escurece, aparece uma bruxa lá fora e essa bruxa vai dormir na cama dele. Ele pede para dormir comigo e com o meu marido em nosso quarto e respondemos que não. Então ele chora desesperadamente e um de nós às vezes tem que deitar no quarto dele até que ele pegue no sono. Já cheguei a deitar no chão e só levantar no dia seguinte, toda quebrada. Como se não bastasse, ele tem tido vários acidentes de xixi que só pioram a minha situação de cansaço. Enfim… vida de mãe! Tudo isso faz parte, é fase e vai passar.

Pois hoje de manhã eu precisava comprar um presente para uma amiga querida, que sempre quebra muitos galhos pra mim e merece um mimo, um reconhecimento. Eu já sabia mais ou menos o que comprar, mas a loja oferece opções demais e eu levaria algum tempo para me decidir pelos itens exatos. O problema maior era que, naquela mesma loja, também são vendidos brinquedos e eu estava com meus dois filhos. O mais novo nem liga, mas o mais velho quer um brinquedo em toda loja que vamos. É meu dever mais do que óbvio impor os limites, afinal, ele é apenas uma criança e não tem noção de nada. E, claro, ele encontrou um brinquedo que queria: um “seaplane” (hidroavião), $13 dólares. Nem passava pela minha cabeça comprar o tal seaplane ou qualquer outro brinquedo. E a tempestade veio: chorava, gritava, se jogava no chão; queria o seaplane. Eu dizia que não poderia comprar porque ele já tinha brinquedos demais e, além disso, eu não tinha dinheiro — já tenho explicado pra ele o que significa dinheiro — mas que se ele fosse bonzinho, talvez pudéssemos escrever uma carta para o Papai Noel. Ixi, que nada! A choradeira continuava. Eu me abaixava para ficar da altura dele e conversava, explicava; ele dizia que queria um abraço, que estava cansado, mas não parava de falar no tal seaplane.

Foi quando uma senhora se aproximou, sorrindo:

Senhora: __ “Por que está chorando?”

Eu: __ “Ah, ele quer um seaplane, mas já falei pra ele que não, que tudo tem a sua hora e não temos dinheiro pra gastar assim.”

Senhora: __ “Aqui. Pegue este dinheiro”, disse enquanto dava uma nota dobrada para o Christian e eu.

Eu: __ “Não podemos aceitar. Ele precisa entender que não pode ter tudo o que quer, na hora que quer.”

Senhora: __ “Por favor, pegue este dinheiro. Não era nem para eu estar nesta loja agora, mas aqui estou, vi vocês e me lembrei de Deus me falando sobre disciplina. Você precisa desse dinheiro mais do que eu. Você merece sair de casa, vir até esta loja, se distrair, ver coisas, se divertir. Vida de mãe é difícil. Pegue este dinheiro. Não sei se a quantia dará para comprar o brinquedo que ele quer, mas espero que ajude.”

Percebi que ela ficaria muito decepcionada caso eu não aceitasse a doação. Peguei. Agradeci do fundo do meu coração. Pedi a Deus que a abençoasse. Disse que explicaria ao Christian o que tudo aquilo significava. Novamente me ajoelhei pra ficar da altura dele, olhei nos olhinhos deles e conversamos. Disse que ele poderia comprar o seaplane porque aquela senhora cheia de amor havia lhe dado o dinheiro que precisava… e que ele deveria agradecer a ela, muito… e pedir a Deus em nossas orações que a abençoasse, assim como o seu lar e a sua família.

Quando ele se virou, ela já tinha saído. A procuramos por toda a loja, mas ela simplesmente desapareceu. Um pouco mais tarde a reencontramos, e Christian teve a oportunidade de agradecer. E disse: “Agora vou comprar o meu seaplane!”. Ela sorriu.

Quando vi a nota, eram 20 dólares. VINTE DÓLARES! Era dinheiro mais do que suficiente para o seaplane e, certamente, muito dinheiro para uma criança — aliás, pra qualquer pessoa, ainda mais quando você pensa que o salário mínimo é $7.25 por hora!

Christian entrou na fila sozinho com o seaplane debaixo do braço e entregou ao caixa a nota de $20, todo orgulhoso de si. Pegou o troco de $6 dólares e uns trocados e me deu para que eu guardasse, pois ele não tinha bolso. Quando peguei a sacola, ele pediu: “Mamãe, eu carrego, pode deixar que eu consigo! Eu carrego!”.  🙂

O troco está bem guardadinho e servirá para continuar ensinando ao Christian o valor das coisas. Mas a maior lição aqui não foi sobre o valor das coisas; foi sobre o valor das pessoas. A lição não foi apenas para o pequeno Christian, que ainda tem muito o que aprender e, na verdade, tudo o que pensava ali na hora era que finalmente estava podendo comprar o seaplane; a lição maior foi pra mim. Na verdade, precisei de um bom tempo para entender e internalizar o que havia acontecido. O que posso dizer agora é que essa senhora deixou uma marca que vai ficar como tatuagem e nunca será apagada; e a bondade e empatia dela será, com toda certeza, multiplicada por ações que me comprometo a “passar para frente”. Hoje foi iniciada mais uma Corrente do Bem e já estou aqui “matutando” sobre o que fazer para passar adiante. Independente das ideias que surgirem, essa lição de generosidade ESPONTÂNEA (ali na hora, sem pensar muito, baseada na pura empatia e na voz de Deus que ela ouviu dentro de si) será colocada em prática.

Em tempo, algo importante mencionar num mundo tão cheio de ódio hoje em dia: as nossas cores de pele — minha e dessa senhora — eram totalmente diferentes, mas nós duas enxergamos além do nosso exterior; pelos nossos olhos, vimos e sentimos as nossas almas!

Paz, meus amigos! E muito amor! Somos todos iguais! ALL LIVES MATTER.

Carol

corrente

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2 Comments

  • Reply
    Aline
    28/07/2016 at 22:47

    Voce pode não perceber, mas compartilhando informações e sua vida aqui já ajuda muito! 😘
    Obrigada! Bjs

    • Reply
      Carol Mendes
      28/07/2016 at 23:05

      Poxa, que bom! Isso me deixa feliz. Muito obrigada! Beijos.

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