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Desapego: Vendi tudo o que tinha

Para quem não sabe, vim para os Estados Unidos no início de 2012, mas não para ficar. Morar aqui nunca foi um sonho meu e minha intenção era retornar a terras tupiniquins após uma temporada de estudos e viagens na América. Tanto que deixei no Brasil um apartamento montado, com todos os meus pertences, móveis, eletrodomésticos e tudo o mais que constitui um lar. Eu voltaria. Acontece que a vida nem sempre segue como planejamos. Nos Estados Unidos, acabei casando e constituindo uma família. Decidi manter o apartamento no Brasil, fechado, para quando fosse ao país visitar família e amigos, ou mesmo lá voltasse a morar com a minha família americana-brasileira. Não me passava pela cabeça me desfazer de nada, até porque suei muito para conseguir tudo aquilo (sentimento oposto ao desapego).

Mas um dia a crise bateu e eu tive que cair na real. Os gastos com condomínio já não estavam compensando as minhas pouquíssimas idas ao Brasil. Foi aí que, depois de 3 anos e meio, decidi vender TUDO o que tinha para trazer nas malas apenas o que representasse valor inestimável e que, de fato, nelas coubessem. Assim, em janeiro de 2016, eu e meus dois filhos pequenos fomos para o Brasil com esse objetivo do real desapego.

Já no Brasil, o processo não foi fácil. O cansaço físico e mental me consumiu por diversas vezes, mas tive que dar conta de tudo: separar o que seria doado, o que seria vendido, o que seria jogado no lixo e o que eu tentaria trazer aos Estados Unidos. Até aí, tudo bem, mas começava a fase 2 dos questionamentos: a) isto vai ser doado, mas para quem? b) Isto vai ser vendido, mas por quanto? c) Isto é lixo, mas será que realmente não tem conserto e, se tiver, quem terá interesse em receber como doação e consertar? d) E isto aqui eu vou tentar levar aos Estados Unidos, mas será que vai caber na mala, será que vai quebrar, será que vai extraviar? Perguntas e mais perguntas.

E o que fazer com aquelas fotos e cartas que eu guardava há anos? Algumas terminei por rasgar, enquanto outras decidi trazer aos Estados Unidos. Aquele momento de escolha foi libertador. Ali eu rasguei não apenas papeis, mas memórias de pessoas e situações que já não eram mais importantes e positivas para mim e não precisavam ser trazidas a esta nova fase da minha vida. Eu já não mantinha contato com várias daquelas pessoas (embora elas tivessem marcado alguma época), mas me desfazer das lembranças físicas retratadas em cartas e fotos foi definitivamente colocar um ponto final.

Bom, imagina todo esse processo de desapego e duas crianças pequenas sedentas por bagunça, por correr, por atenção, por novidade, por, por… por TUDO! E como o meu marido não estava presente (ficou aqui nos EUA trabalhando), eu era a única referência delas, o único norte, a solucionadora de conflitos, e tudo o mais. Precisava dar conta.

Sair com os amigos? Quem dera! Não coloquei o nariz pra fora de casa. Tive a oportunidade de rever minhas amigas somente em três ocasiões quando foram me visitar em casa, sendo que algumas fizeram a gentileza de levar bolo, salgadinho, suco e até copos e pratos descartáveis, pois sabiam que meu apartamento estava vazio.

E alguém perguntou: “Nossa, mas não bate uma tristeza ter que se desfazer de tudo isso?”. Olha, não é fácil ver o apartamento que você montou com tanto suor ir embora aos pouquinhos (e por um valor irrisório!). Mas a tristeza durava apenas um minuto e ia embora, pois: 1) eu tinha um mantra: “me desfazer do velho e abrir espaço para o novo”); e, 2) na verdade, eu não tinha tempo de pensar em absolutamente nada; estava em modo automático atendendo as pessoas que apertavam a campainha a todo momento, perguntando: “Fiquei sabendo que você está se mudando e vendendo todas as suas coisas. Posso dar uma olhada?”. E eu, vestindo shorts, camiseta sem manga, com o cabelo preso e morrendo de calor no verãozão do interior paulista, atendia a todos sem pressa e com um sorriso no rosto. E a pessoa que eu nem conhecia entrava e acabava levando, no mínimo, 4 ou 5 items. Isso porque os preços eram absurdamente baratos, já visando o desapego e a venda imediata. Muitas coisas foram vendidas por 1 real, 2 reais… Tive o cuidado de colocar etiquetas de preços em tudo, assim a pessoa não precisaria ficar perguntando “quanto custa esse? e aquele outro?”. Uma compradora viu as etiquetas e perguntou: “Está em dólar?”. Era tudo tão barato que ela achou que fosse dólar. Mas era Real mesmo.

Só sei que em um mês vendi TUDO o que eu tinha: sofá de couro novinho, mesa nova e caríssima que eu havia escolhido a dedo, estantes, camas, máquinas de lavar e de secar, geladeira, fogão e muito mais. Eu pedia um valor que representava uma desvalorização de 70% em relação ao que eu havia pago originalmente, mas acabava vendendo por bem menos. Isso me doía, afinal, lutei tanto para comprar aquelas coisas e tinha que vender por preço de banana… Mas então eu focava no desapego e na missão que eu estava tendo ali, e não deixava que os pensamentos de “ai, ai” me dominassem. Falava pra mim mesma: “Quando desapegamos, abrimos espaço para novas coisas em nossas vidas. Deixa ir.” E a força voltava, sem choramingos.

Mas na maior parte do tempo eu não pude pensar em nada mesmo. Quando não eram as vendas, eram os meus filhos que me mantinham bastante ocupada. Não tive crise, a não ser quando batia o cansaço pelas negociações infrutíferas. Tudo bem que é desapego, mas tem gente que quer de graça, e se não conseguir levar de graça vai tentar tirar de você até o último centavo, muitas vezes inventando as mais variadas histórias para isso. Por exemplo, num sábado a pessoa chega e leva um tapete por R$ 160, à vista; vê que você tem uma cama de solteiro, fica interessada e diz que volta para busca-la na segunda-feira. Você diz que, apesar de estar pedindo R$ 300, pode fechar por R$ 250 se ela voltar, de fato, na segunda-feira. O dia chega e ela envia mensagem dizendo que só pode pagar R$ 200 devido a uns  X imprevistos que a fizeram gastar muito no final de semana. Depois de alguns dias eu aceito fechar por R$ 200, mas aí ela retorna dizendo que só paga R$ 160 por causa de outros Y imprevistos. Perde-se o respeito e é cansativo, sabe?

Mas apesar de todo o cansaço, digo com grande convicção: desapegar faz bem e limpa a alma. É como se  alguém nos desse um caderno novinho, com um monte de folhas brancas, e nos dissesse:

“As suas memórias serão levadas no coração, não em seus bens materiais. Use-as para se tornar uma pessoa melhor. Tome este caderno e escreva novas memórias a partir de agora. Recomece!”

Para os Estados Unidos acabei trazendo apenas algumas cartas antigas de amigos queridos, algumas fotos, CDs, DVDs e livros que me lembram épocas boas, 2 bonecas e 2 ursinhos da infância. Todo o resto foi descartado, vendido ou doado. E mesmo essas coisas pequenas que eu trouxe e representam algum valor afetivo, um dia também terão um fim. E, para mim, tudo bem; pois quando este dia chegar eu estarei me preparando para mais uma nova fase em minha vida, na qual eu provavelmente não precisarei de absolutamente nada material. 😉

desapego

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