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Quase invadiram a minha casa!

Pois é, quase invadiram a minha casa. Não sei ao certo como ou até o momento exato em que poderia ter ocorrido, mas sei que estávamos sendo observados, sondados, analisados. Vou contar o que aconteceu e peço que leiam até o final. Não foi um caso isolado. Trata-se de uma forma comum de invasão a residências nos Estados Unidos e ninguém está livre deste tipo de acontecimento, por mais que “more numa vizinhança tranquila”. Aliás, criminosos adoram vizinhanças tranquilas onde quase não há crimes relatados, com moradores que deixam a guarda totalmente aberta no quesito segurança. Não precisa ser paranóico, mas cuidados NORMAIS são aconselháveis em qualquer lugar do mundo. Acompanhe o texto.

“Depois da meia-noite, coisa boa não deve ser.”

Relato

Domingo de madrugada. Eu não conseguia dormir e fiquei fazendo “window shopping” online (quando você fica só “namorando” os produtos na Internet, sem necessariamente comprar alguma coisa). Era 2h45 da manhã e decidi comer/beber alguma coisa na cozinha. Sempre que estou na cozinha sozinha de madrugada tenho a sensação de que estou sendo observada, pois há muitas janelas na casa e lá fora é tudo escuro, não dá pra ver se tem alguém por ali. Mas, sem paranoia! A maioria das janelas têm persianas (as chamadas “blinds”) e algumas delas ficam abertas à noite (bom, ficavam!). Enfim, bebi alguma coisa, paguei uma conta online e fui para o quarto tentar dormir.

Pouquíssimos minutos depois, exatamente às 3h00 da manhã, a campainha tocou. Meu primeiro pensamento foi: “É o vizinho. Aconteceu alguma coisa”. Mas logo em seguida repensei: “Não. Se fosse o vizinho, ele telefonaria”. Gelei. Um segundo depois, a pessoa bate à porta. Acordo meu marido. Mais um segundo e a campainha é tocada novamente, de forma insistente, como se fosse uma grande urgência e não pudessem esperar. Falei para o marido: “Estão tocando a campainha insistentemente. O que será? Melhor espiarmos.”

Há dois vidros verticais de cada lado da porta, por onde conseguimos ver quem está do lado de fora. Meu marido acende a luz de fora, vê um rapaz e decide abrir a porta, mostrando o próprio corpo apenas de forma parcial. Calafrios. Penso nas crianças, me asseguro de que o celular está em minhas mãos e não me deixo ser vista. Ouço a conversa:

Estranho __ “Acabou a bateria do meu celular e eu queria saber se posso usar o seu para avisar os meus amigos de que estou perdido”.

Marido __ “Desculpe, mas a bateria do meu celular também acabou”, (o que obviamente era mentira).

Estranho __ “Então posso usar o seu carregador?”

Marido __ “Não, me desculpe.”

Estranho __ “Ok, obrigado.”

Ressalto que a voz do rapaz não estava “normal”; tive a impressão de que estava sob o efeito de álcool ou drogas.

A porta foi fechada e ele aparentemente se foi.

Fui pra janela ver pra onde ele iria. Não consegui ver nada, estava tudo escuro. Finalmente avistei um carro descendo a rampa da garagem do meu vizinho a toda velocidade e se dirigindo às outras ruas do bairro. Confirmei com meu vizinho se alguém havia tocado a campainha da casa dele às 3 da manhã e ele disse que sim.

Pedi para o meu marido uma breve descrição do rapaz. Ele disse: branco, magro, alto, mais ou menos uns 20 anos de idade, boné virado para trás. Pensei em alertar um grupo de mães aqui da minha cidade (inclusive vizinhas) pelo Facebook. Sabia que muitas estariam acordadas. Todas agradeceram o aviso e me aconselharam a ligar no número de não-emergência da polícia (911 é só para emergências meeeeeesmo, tá gente?). Por que ligar? Por vários motivos: 1) ele poderia ter ido assaltar casas vazias de vizinhos e ninguém saberia quem o fez a não ser que eu levasse ao conhecimento da polícia o que havia acontecido na minha casa; 2) os policiais precisam saber sobre o que acontece nas redondezas a fim de aumentar a ronda, se e onde necessário; 3) há crimes que ocorrem em outros bairros que podem estar conectados com este e, como meu marido sabia descrever o rapaz, isso poderia ajudar em muito; e tantos outros motivos.

Então liguei para o departamento de polícia, embora já houvesse decorrido 1 hora desde que o rapaz havia saído daqui de casa. Contei tudo o que eu sabia e o que meu marido havia me falado sobre a descrição do suspeito. A atendente perguntou se eu gostaria que ela enviasse uma viatura policial para fazer uma ronda na vizinhança e verificar a minha casa. Falei que sim. Desliguei o telefone e olhei pela janela. O policial já havia chegado na vizinhança (super rápido), mas não veio direto para a minha casa (foi checar as ruas primeiro). Naquele momento, percebi um carro estacionado do outro lado da minha rua, com as luzes acesas… mas, assim que avistou a viatura, o motorista apagou todas as luzes do carro (!!!). E quando a viatura veio se aproximando dele, ligou o carro rapidinho e foi embora, deixando o bairro. O policial entrou na minha rua, parou o carro literalmente no meio da rua, com as luzes  todas acessas e farol alto. Com uma lanterna, explorou cada canto da parte externa da minha casa e do terreno em geral. Abri a porta da frente para falar com ele. Era um policial jovem (não sei se havia outro na viatura) e muito atencioso. Disse não ter encontrado ninguém, mas que ficariam de olho com qualquer acontecimento suspeito naquela área. Se alguma coisa acontecer e o suspeito tiver as mesmas descrições, eles poderão nos procurar já que temos como fornecer detalhes sobre a pessoa.

O que acho que aconteceu

Venhamos e convenhamos! O rapaz dizia precisar do celular emprestado para ligar para amigos e avisar que estava perdido. Oras, não poderia ter dirigido mais um quilômetro até encontrar uma loja de conveniências 24 horas? Tinha mesmo que ter acordado uma família às 3 horas da manhã? Não, não, não; ele veio com a pior das intenções.

Minhas hipóteses: 1) ele observava a casa, me viu na cozinha tomando água minutos antes, achou que eu estivesse sozinha (como muitas e muitas esposas de militares americanos ficam sozinhas com seus filhos enquanto os maridos estão fora) e resolveu praticar algum crime aqui; ou, 2) estava testando para ver se alguém respondia a campainha, caso contrário, chamaria os comparsas (que poderiam estar ali mesmo no meu terreno ou dentro do carro dele) para arrombar a porta ou janelas e furtar a residência; ou 3) se eu mesma tivesse atendido, talvez ele teria forçado a entrada e sabe-se-lá feito o quê. Duvido um pouco da hipótese 2 porque um dos nossos carros estava parado do lado de fora de casa, indicando que poderia haver pessoas ali. Além disso, temos placas e adesivos espalhados ao redor da casa deixando claro que temos alarmes. Mas pra ser bem honesta, essas placas e adesivos não chegam a impedir roubos e furtos não, vide o post “Furto na casa do vizinho“. Resumo da ópera: EU ACHO que ele me viu pela janela, pensou ser presa fácil por provavelmente estar sozinha e resolveu arriscar.

No dia seguinte, uma moradora aqui da cidade ainda me alertou: “Isso aconteceu com o meu marido há alguns anos e era uma mulher, com uma história de que um pneu havia furado e a bateria do celular acabado. Era 2 horas da manhã. Mas havia dois homens com ela, escondidos. Eles amarraram o meu marido numa cadeira e o roubaram. Não quero te assustar, mas nunca abra a porta para quem quer que seja; chame a polícia! Como dizia a minha mãe, ‘Depois da meia-noite, coisa boa não deve ser'”.

Para que saibam: esse tipo de história é muito comum. Pode ser uma mulher batendo na sua porta desesperada dizendo que está sendo perseguida e pedindo ajuda; pode ser uma criança chorando com qualquer desculpa clamando ser urgente; pode ser um vendedor de livros; pode ser alguém se oferecendo para cortar a sua grama; pode ser qualquer pessoa simplesmente pedindo um copo d’água. Você pode abrir a porta, a pessoa analisa a casa, vai embora mas volta depois com os comparsas; ou eles te atacam ali mesmo. Os cenários são vários, mas o “scam” é sempre o mesmo e começa com um toque na campainha, uma batida na porta. E pode acontecer a qualquer hora do dia. Se achar que estou exagerando, faça uma simples busca no Google e veja como esse golpe é comum e antigo.

Sinais sutis de que a sua casa está sendo analisada para roubo

  • Carros estranhos parados na rua e com atitudes suspeitas. Podem ficar ali por um tempo prolongado ou ir e voltar, como se aprendendo sobre a sua rotina. Desconfie de carros com película escura nos vidros.
  • Estranhos caminhando pela sua rua que não necessariamente estão praticando exercícios físicos. Observe o que eles estão fazendo. Se estiverem caminhando devagar, observando a vizinhança, podem estar verificando as vulnerabilidades das casas.
  • Pessoas pedindo para usar o telefone, usar o banheiro ou beber água podem estar querendo acessar a sua casa de forma legítima, destrancar portas e janelas enquanto você estiver distraído para voltar depois, à noite. Se elas entrarem na sua casa, verifique sempre se portas e janelas permanecem fechadas/trancadas.
  • Se alguém foi fazer um trabalho na sua casa recentemente (serviços gerais, consertos, jardineiro, vendedor, etc) e de repente volta sem ter sido chamado, pode ser que tenha aparecido na esperança de que a casa estivesse vazia. Mesmo que ele vá embora em seguida inventando uma desculpa, ligue para a polícia e relate a atitude suspeita.

Clique aqui para ler outras histórias conhecidas usadas por criminosos para invadir residências.

O que o departamento de polícia indica que seja feito nessa situação

Agora que já leu a minha história, pense a respeito. Se tocarem a sua campainha no meio da noite, qual o seu plano? O que fará? Meus vizinhos entraram em contato com o do condado para saber o que devemos fazer e eis o que nos foi recomendado:

  • Ligue para a polícia caso você veja alguma atitude suspeita. Não investigue por si próprio.
  • Não atenda a porta no meio da noite a menos que você tenha certeza que conhece a pessoa.
  • Acenda uma luz para que a pessoa saiba que há gente na casa. Se possível, acenda várias luzes interiores e exteriores para chamar a atenção para a sua casa.
  • Ligue para a polícia e avise à pessoa que a ajuda está à caminho.
  • Se possível, utilize o número de não-emergência (911 só em caso de urgência).

O que fizemos de errado

O que fizemos de errado? Simplesmente abrimos a porta! Isso não deve ser feito em hipótese alguma se um estranho bate à sua porta de madrugada, mesmo que você esteja armado. Leia esta história sobre como Eric Walters, um ex-militar no Texas, espiou pelo olho mágico e decidiu abrir a porta para um homem às 1h45 da manhã e, mesmo armado, quase se deu muito mal. Assim que ele abriu a porta, apareceu outro homem armado. Eric fechou a porta rapidamente e atirou seis vezes através da porta fechada. Os suspeitos fugiram e não se sabe se foram atingidos ou não. Mas a história poderia ter sido outra. E se o homem tivesse atirado primeiro? E se ao invés de um cara armado aparecessem cinco?

Eric estava tentando proteger a esposa e os dois filhos, mas a melhor coisa que ele poderia ter feito era ligar para 911, avisar sobre o incidente, avisar que estava armado, sua localização dentro da casa, bem como as roupas que estava vestindo. Enquanto aguardava a polícia, é possível que a casa fosse arrombada, é verdade. Mas é muito mais fácil explicar para a polícia tiros dados em um suspeito que entrou na sua casa do que tiros nas costas de alguém que estava do lado de fora da casa.

Avise os vizinhos

É importantíssimo você ser ativo na sua comunidade, ter os emails de todo mundo ou apenas o email da associação de moradores do seu bairro. Sempre que presenciar alguma atitude suspeita avise não apenas o departamento de polícia como também os seus vizinhos. No meu caso, enviei dois emails:

  • Um para a associação de moradores, a qual se encarregou de avisar a todos os vizinhos e ainda incluiu um segundo relato contando que recentemente um morador viu um homem andando em direção à garagem, em plena luz do dia. Quando questionado, o suspeito disse que estava procurando por gasolina!
  • O outro email enviei para os meus vizinhos através da Nextdoor, uma rede social só para vizinhos trocarem informações. Se tiver interesse em saber mais e quiser criar uma “neighborhood” (vizinhança) para a sua área, clique aqui.

Também procure saber se a sua vizinhança possui um programa de “Neighborhood Watch” e participe, seja ativo.

“Carol, você mora num lugar perigoso!”

Não, amigos. Eu moro num bairro considerado seguro. Mas não sejamos inocentes em achar que nos Estados Unidos podemos dormir com a porta destrancada porque não corremos perigo. É verdade que  muitos anos atrás isso era possível, principalmente em cidadezinhas bem pequenas e pacíficas. Porém, hoje em dia isso não é mais assim. Se no seu bairro ou na sua cidade nada acontece, todos se conhecem, e “está tudo bem”, isso não quer dizer que um “forasteiro” não vai aparecer por aí na calada da noite e cometer algum crime. Tire os seus óculos cor-de-rosa! Pessoas que você contrata para fazer serviços na sua casa também podem ser a porta de entrada para muitos desses crimes.

Se me perguntarem, digo que me sinto muito mais segura aqui nos Estados Unidos do que no Brasil, MAS não posso deixar de tomar alguns cuidados, afinal, o MUNDO está doente e há perigos em todos os lugares (alguns mais, outros menos). O recado está dado, mas cada um faz da sua vida o que bem entender! Euzinha, que já tomava um super cuidado com tudo (sou de São Paulo, amores!), agora adotei alguns cuidados extras. Não vivo na paranoia, tenho uma vida normal e SEM MEDO. Porém, mantenho os pés no chão e tomo as devidas precauções para a segurança da minha família.

Apenas para fins de curiosidade, vejam neste vídeo o que acontece numa residência em situação similar à que aconteceu aqui em casa (o criminoso toca a campainha e bate na porta incessantemente), porém à luz do dia. Percebam que a luz de fora estava acesa, sinal de que os moradores poderiam estar viajando.

Também leia nosso post sobre COMO MANTER A SUA CASA MAIS SEGURA.

Be smart, be safe!

Beijos no coração de todos,

Carol

quase invadiram a minha casa

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2 Comments

  • Reply
    Aline
    23/08/2016 at 15:08

    Carol, q medo! Nossa… Eu com certeza não abro a porta!!!
    Q bom q deu certo e que não aconteceu nada, mas no Brasil com ctza esse cara estaria armado e forçaria a entrada. Enfim, todo cuidado é válido!
    Bjs!!!

  • Reply
    Criança pequena perambulando sozinha à noite na rua | Descobri a América!
    25/03/2017 at 01:26

    […] descrever. Quem seria àquela hora? Coisa boa não devia ser. Se ainda não leu o meu post “Quase invadiram  minha casa!“, dê uma passado por lá primeiro antes de continuar a leitura deste aqui. A diferença é […]

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