Papo de Mãe

Relato sobre a adaptação das crianças na mudança

Quando você deixa o Brasil para vir para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor para a sua família, você vem pensando nas coisas boas que estão à sua espera, nas oportunidades de crescimento (principalmente para os seus filhos) e qualidade de vida. Sempre ouvimos dizer que as crianças “aprendem a falar inglês super rápido e se adaptam facilmente a esse tipo de mudança”, e que então não precisaríamos nos preocupar com a adaptação delas. Até aí, tudo bem. A questão é que nem todas as crianças reagem da mesma forma quando se deparam com grandes mudanças (seja mudança de cidade, estado ou país).

A Aline e o marido passaram por alguns problemas com a filha quando chegaram em Seattle, no estado de Washington. É interessante conhecer a história deles para estar preparado num eventualidade de acontecer o mesmo com você. Estar preparado quer dizer saber fazer a coisa certa, saber que o que está acontecendo é normal e que tudo vai dar certo no final.

Aline, te agradeço muito, muito, por compartilhar sua história conosco!

Um beijo!

Carol


O processo de adaptação da Ana

“Minha filha ficou agressiva: nos batia, fazia birra, xingava, desobedecia, e tais atitudes nunca haviam feito parte da nossa convivência com ela.”  (Aline Milanez)

Era a oportunidade dos nossos sonhos! Ir para os Estados Unidos, com emprego garantido e com a oportunidade de melhorar nossa vida e criar nossa filha em uma sociedade mais segura. Imagine só quantas oportunidades ela teria!

Chegamos em Seattle com 7 malas: 6 com nossos pertences e 1 com ilusões (!). Imaginamos que tudo seria conforme planejado. Adaptação?! Que nada! Já nascemos adaptados; achávamos que por já termos vindo viajar pra cá outras vezes, conhecíamos tudo, sabíamos tudo e a vida seria um eterno conto de fadas. Ledo engano! As viagem de turismo pouco contribuem para a vida real onde você vai morar.

Naqueles primeiros meses nós tivemos algumas turbulências na família e isto acabou fazendo com que eu não percebesse claramente que a minha filha estava tendo problemas. Na época ela tinha 4 anos e meio. Sempre foi uma menina ativa e geniosa, então muitas atitudes que estava tendo eu julgava ser pela personalidade dela. Minha filha ficou agressiva: nos batia, fazia birra, xingava, desobedecia, e tais atitudes nunca haviam feito parte da nossa convivência com ela. Ainda que fosse um comportamento anormal,  achei que ser mais uma daquelas fases impossíveis do desenvolvimento infantil.

Só fui perceber que ela estava com problemas de verdade quando ela passou a ter um comportamento obsessivo-compulsivo. Eu tentava ajuda-la de todas as formas, mas nada parecia dar jeito. Um dia, meu marido foi ajuda-la a tomar banho e ela bateu nele. Ele perguntou o que estava acontecendo, que ela podia confiar nele e tal. Foi quando minha filha desabafou e disse que estava triste porque havia perdido os amigos e a família. Meu mundo ruiu quando ouvi aquilo. Estive tão submersa em outros problemas que não consegui enxergar que toda aquela agressividade e compulsividade eram, na verdade, um pedido de ajuda.

Fiquei sem chão. Pra pior as coisas, eu ainda estava com dificuldade em falar inglês. Foi aí que a minha cunhada me ajudou e, pesquisando na Internet por terapeutas brasileiras que atendessem por aqui, encontrou um anjo que nos atendeu e nos ajudou a encontrar a minha filha de novo.

A primeira sessão de terapia foi somente entre eu e a psicóloga. Desabafei e contei tudo o que estava acontecendo. Cheguei lá pesando uma tonelada e saí leve como uma pluma. Ela me acalmou, disse que esse problema de adaptação é muito comum, mais comum ainda quando a criança não sabe expressar os sentimentos, pois aí a agressividade e a compulsividade vêm como uma válvula de escape. A partir desta sessão, minha filha passou a frequentar sessões semanais de terapia durante um ano. No meio daquele ano, viajamos para o Brasil. Na volta para os Estados Unidos, ela teve uma pequena recaída, mas já sabíamos que isto poderia acontecer e conseguimos contornar a situação.

Um ano depois, ela foi liberada das sessões e estava livre da agressividade, compulsividade e toda aquela tristeza que tomou conta da minha menininha. Foi então a hora de verificarmos se a terapia havia realmente funcionado ou não. Minha mãe veio nos visitar e passou 30 dias conosco. Minha filha é muito ligada à avó e durante estes 30 dias dormiu na mesma cama e de mãos dadas. Meu coração partia de pensar no momento em que minha mãe teria que voltar para o Brasil! Mas o tal dia dia chegou. Minha mãe foi embora e minha filha não demonstrou nenhuma reação, simplesmente ficou calada, o que me  preocupou. Porém, na volta do aeroporto, ainda na rodovia, ela começou a chorar. Disse que sentia muita saudades da vovó e que queria voltar para o Brasil. Ao mesmo tempo em que meu coração estava em frangalhos, eu me aliviei: a terapia havia funcionado! Minha filha conseguiu colocar pra fora a tristeza e a frustração que estava sentindo. Naquele dia, conversamos muito. Falei que nossa vida era aqui nos Estados Unidos e que muitas outras pessoas viriam nos visitar, e elas também precisariam ir embora para suas casas. Ela chorou por mais uma semana com saudades da avó. O choro foi gradualmente diminuindo até cessar.

Ninguém espera passar por uma situação dessas com seu filho, e, quanto mais velha a criança for, mais ela tem consciência daquilo que deixou pra trás. Entretanto, ela ainda é uma criança e não consegue compreender que as mudanças são necessárias. É aí que entra o apoio incondicional dos pais. Ajudar a criança a superar esses obstáculos, mostrar que na nova vida podemos fazer novos amigos, conhecer novos lugares e somar tudo isto ao que ficou pra trás, fazendo um grupo ainda maior de pessoas queridas!

Filhos encontram nos pais o seu porto seguro. Por isto, é importante ouvir, ter paciência e ajudar. Foi uma época muito difícil, mas que ajudou muito a minha filha a amadurecer, a ter mais consciência dos seus sentimentos. À primeira vista nós sempre nos sentimos perdidos, não enxergamos uma luz no fim do túnel… Mas a luz sempre está lá; basta termos força para a encontrarmos.

Aline Milanez

Clique aqui para assistir ao vídeo com o depoimento completo da Aline.

 

adaptação

 

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