Curiosidades Dicas para quem mora nos EUA

Vivendo o furacão Matthew em Miami

Vivendo o furacão Matthew em Miami

(por Felipe, brasileiro, residente em Miami)

Como muitos de vocês devem saber, na semana passada o furacão Matthew passou pelo Caribe e chegou até os Estados Unidos, tendo a Flórida como o primeiro estado americano afetado. Foi um furacão muito poderoso, classificado como categoria 4 (numa escala de 1 a 5) em vários momentos de sua trajetória. Passou com ‘landfall’ (quando a projeção do olho do furacão se dá sobre uma porção de terra) pelo Haiti e por Cuba, gerando um enorme rastro de destruição e centenas de mortos.

Como vivenciar a experiência de um furacão mais ou menos perto de você não é algo tão comum para os brasileiros, no processo de me preparar para o furacão, acabei aprendendo um pouco sobre o tema – conhecimento é chave para saber se proteger – e achamos que poderia ser interessante compartilhar um pouco desta experiência com vocês! Espero que apreciem a leitura.

Furacão – o que é e de onde vem?

Vamos iniciar pelo básico – o que é e como surge um furacão? Furacão pode ser definido como um fenômeno atmosférico com origem nos oceanos tropicais, comumente caracterizado por um sistema circular de movimentação de ar, com velocidade superior a 105 km/h. Muito comumente os furacões apresentam tal sistema de circulação de ar com diâmetro de centenas de quilômetros. Os furacões surgem quando as águas dos oceanos tornam-se mais quentes (temperaturas iguais ou superiores a 27ºC), e há conjuntamente um elevado índice de evaporação, com a produção de uma grande quantidade de umidade. Essa umidade é, depois, convertida nas massas de ar que formam os furacões. Uma curiosidade – como sistemas circulares que são, os furacões têm um movimento de giro de massas de ar – perceba que, no hemisfério norte, marés e ventos giram no sentido anti-horário, enquanto no hemisfério sul, giram no sentido horário (efeito de Coriólis).

Monitoramento e avisos das autoridades

Agora que já sabemos o que são e como se formam furacões, podemos entender melhor porque a região do Caribe e sul dos Estados Unidos é tão propícia a ser vitimada por furacões, em especial durante a temporada anual de furacões (junho a novembro, todos os anos) – essa região conta, nesse período do ano, com altas temperaturas dos oceanos, aliadas à alta umidade. Mas aqui vem a parte ‘boa’ dessa história – como os furacões se formam em pleno oceano, em geral podem ser identificados e monitorados com uma boa antecedência (em geral dias), permitindo à população dos locais afetados se preparar e reagir à ameaça do furacão. E foi exatamente isso que aconteceu aqui na Flórida. Eles monitoram tempestades em alto mar, enviam aviões não-tripulados às tempestades para coleta de dados, de forma a determinar seu potencial de se transformar uma tempestade tropical ou num furacão (pior cenário).

Assim, desde a semana anterior à chegada do furacão já se sabia (1) que a tempestade viraria mesmo um furacão; (2) que seria muito forte, com potencial de ventos muito fortes e grandes inundações; (3) que passaria pelo Caribe e depois chegaria à Flórida. Isso então é o gatilho para que as autoridades iniciem todo o processo de resposta à ameaça de furação, que tinha previsão de chegada na Flórida na tarde de quinta-feira, 6 de outubro.

Considerando o caminho previsto do furacão e sua intensidade, as autoridades determinaram o que deveria ser feito em cada local ao longo do caminho. Alguns locais mais pro norte da Flórida e também na Georgia e Carolina do Sul tiveram ordem obrigatória de evacuação, onde a população tem que fechar a casa, reunir seus mantimentos e documentos, e deixar a casa em busca de abrigo em um local seguro, muitas vezes em abrigos montados em escolas públicas, ou ainda viajando para outras cidades em locais considerados menos suscetíveis ao furacão. Mesmo no caso de regiões sem ordem de evacuação, muita gente acaba saindo de casa por precaução.

Preparação

Aqui em Miami vimos os esforços de preparação acontecerem de forma mais efetiva a partir da terça-feira, 4 de outubro. De forma geral, em algum momento entre terça-feira e quinta-feira, comércio, serviços públicos, parques, escolas e empresas em geral fecharam. Eu fiquei em casa de quarta a sexta-feira. Na própria terça-feira, meu último dia no escritório na semana passada, fui ao supermercado após o trabalho comprar alguns itens básicos que são recomendados na preparação para o furacão, principalmente água, comida e baterias para lanterna e rádio. Confesso que foi uma experiência diferente; o supermercado estava lotado (o que já é bem pouco comum), mas mais do que isso, eu percebia que as pessoas estavam nervosas, agitadas, ansiosas e desatentas. No supermercado, o corredor onde ficavam normalmente as garrafas de água estava praticamente vazio – por alguma razão havia ainda muita água com gás. Mas as prateleiras estavam vazias não porque não houvesse mais água, e sim porque a demanda era tanta que os empregados do supermercado sequer davam conta de abastecer as prateleiras – saiam do depósito pra área interna do supermercado, com pallets de água, e ali mesmo na porta do depósito o povo caía sobre o pallet como se fosse o último prato de comida da vida. Cenas muito diferentes pra mim. Outro item que estava com altíssima demanda era pão e manteiga de amendoim, a famosa “peanut butter” (as autoridades recomendam comprar comida não perecível, e de alto poder energético, caso você fique sem poder sair de casa por vários dias, isso pode ser útil).

Furacão Matthew

Na terça-feira já era difícil encontrar água nos supermercados locais.

 

Furacão Matthew

Cenário contrastante no supermercado local na quinta-feira, dia 6 — muita água, mas faltava pão.

 

Furacão Mathew

O sorvete que normalmente custa $5.19 dólares estava sendo vendido na promoção: compre 2 por $6 dólares. Era vender o estoque ou perde-lo.

 

Venda similar com os ovos (alimentos perecíveis) em supermercado local

Venda similar com os ovos (alimentos perecíveis) em supermercado local

Além disso recomendam abastecer o carro e deixar o tanque cheio, pois em caso de haver necessidade de evacuação de emergência, você está pronto para sair. E lá fui eu abastecer o carro. Mas qual não é a minha surpresa ao ver filas gigantescas em alguns postos, e outros postos até já sem combustível à venda. Assim, minha esposa e eu decidimos sair já na madrugada de quarta-feira para ir em outros postos, e nossa estratégia deu super certo – enchemos os tanques dos carros sem problemas.

Furacão Matthew

Postos de gasolina sem combustível

Com suprimentos já garantidos, começamos também a pensar na integridade estrutural da nossa residência. Nossa região não foi considerada uma região de evacuação, o que é ótimo pois não precisamos sair da nossa residência. Como moramos em apartamento, em andar alto, inundação não é tipicamente um risco. Os vidros externos em geral podem ser um problema, mas os vidros das janelas e porta da sacada aqui no nosso apartamento são os chamados ‘impact proof glass’ que são teoricamente certificados e testados para aguentar um furacão forte, como poderia ser o Matthew, sem romper. Assim, não há a necessidade de colocar aqueles “shutters” de metal fechando totalmente as janelas. No supermercado aqui perto da nossa casa e em muitos comércios onde há grandes vitrines e janelas de vidro, vimos muita gente colocando placas de madeira para cobrir os vidros e evitar que se quebrassem com os ventos. Na estrutura dessas janelas e vitrines já há diversos furos nos quais as placas de madeira são aparafusadas, de maneira a ficarem bem firmes.

Supermercado em Miami, às 11 da manhã de 06/10/16: "We are open" -- Vidros cobertos do supermercado, mas com a mensagem de "estamos abertos".

Supermercado em Miami, às 11 da manhã de 06/10/16: “We are open” — Vidros do supermercado totalmente cobertos com “shutters”, mas com a mensagem de “estamos abertos”.

 

Janelas de supermercado totalmente cobertas com "shutters", mas avisando que estão abertos. Enquanto isso, vemos residentes alugando filmes na máquina para assistirem caso tivessem eletricidade mas não TV a cabo.

Enquanto isso, havia residentes alugando filmes na máquina para assistirem caso tivessem eletricidade mas não TV a cabo.

 

Furacão Matthew

Aviso de que a piscina estaria fechada.

Já tendo suprimentos e garantindo que a estrutura da residência estava OK, o próximo passo era garantir o uso do apartamento – imagine num cenário potencial ficar 3 ou 4 dias sem água em casa. Como você faz com banheiro e tal? Assim, começamos a guardar água; enchemos uma das banheiras para ter água para uso em sanitários, e enchemos panelas, garrafas térmicas, cafeteira, squeezes, enfim, tudo que podia armazenar algum volume interessante de água, a gente encheu. Para entender bem esse tema da água – no caso de apartamentos o maior problema é a falta de energia que além de te deixar sem TV, luz, internet, etc, também te deixa sem fogão elétrico, sem forno de micro-ondas, e sem bomba pra encher as caixas d’água do prédio. Por isso é tão importante ter pequenos reservatórios de água pra ‘operação’ da residência.

Percebam o seguinte – o furacão, o vento em si, quando passa, é muito rápido – são coisa de minutos ou no máximo poucas horas de ventos realmente fortes. Assim, deve haver uma preocupação com o que fazer e como se comunicar após o furacão. E nesse sentido nosso plano tinha o carro como ponto central – no carro você tem rádio, tem ar condicionado (calor da Flórida sem ar condicionado, é complicado amigos!!), tem energia pra carregar celular. E é uma caixa fechada de mais de 1 tonelada de peso! Serve pra várias coisas. Em situações como um furacão, com falta de energia elétrica e com queda do sinal de TV a cabo e internet, você acaba ficando dependente do seu celular como ferramenta de comunicação, e só consegue saber o que está acontecendo por ele. Mas sem energia elétrica, como manter o celular carregado? Bem, nossa estratégia pra isso foi (1) manter o celular e laptops (que servem pra carregar o celular) sempre carregado enquanto tivéssemos energia; (2) ter baterias extras pro celular e, em último caso, (3) carregar o celular no carro, como mencionei antes.

O próximo passo era deixar comida preparada. Nosso racional foi de que era melhor comer comida fria do que não comer. Assim, cozinhamos algumas coisas que podíamos deixar pronto e comer em caso de falta de eletricidade. Acabamos fazendo carne moída cozida, massas de panqueca, e cozinhamos massa penne. Nossa idéia era que podíamos pazer panquecas, comer a carne pura mesmo, ou ainda fazer uma salada de massa com atum e etc.

O Furacão em si!!

Eu certamente nunca assisti por tanto tempo ao Weather Channel na vida. Eles estavam com cobertura ao vivo 24h por dia. E vamos combinar – tem um monte de gente ali que vive de perseguir tempo ruim! Eles não estão na praia mostrando dia de sol e tempo bom; muitos são os ‘storm chasers’ que acompanham o tempo ruim e vão a estes lugares exatamente pra mostrar pro público ao vivo na TV. Acabou que o furacão Matthew se manteve afastado da costa da Flórida na região de Miami; na verdade, bem afastado eu diria, coisa de 160km (clique aqui para ver um mapa do furacão em tempo real no dia 06/10/16). Com isso, o que sentimos em Miami dos efeitos do furacão foi bastante chuva e algo de vento, em rajadas que iam e vinham. Mas confesso a vocês que já vi chuva e vento piores em Miami em outras oportunidades nesses 3 anos em que moro aqui. A situação foi bem diferente mais pro norte da Flórida – cidades como Jacksonville e, sobretudo, Saint Augustine (a cidade mais antiga dos Estados Unidos inteiro) foram muito afetadas pelo Matthew, com grandes inundações e alagamentos. Realmente tivemos muita sorte em Miami!!

Depois da tempestade, a calmaria…

Sempre dizem que depois da tempestade vem a calmaria né! Pois foi exatamente assim! Quinta-feira um furacão na costa da Flórida, e na sexta-feira um dia que amanheceu nublado e encoberto (sem vento!), ao longo do dia se tornou um lindo dia de sol, com direito a um por-so-sol memorável! Já na sexta-feira comércio em geral e serviços estavam voltando ao normal, mas foi no sábado que a vida voltou totalmente ao normal aqui em Miami, pelo menos para todos que não tiveram nenhum prejuízo com o furacão – claro, houve casos isolados de perdas materiais aqui por Miami, mas muito pequenas perto do potencial que se previa; vale lembrar que o último ‘grande furacão’ (categoria 3, 4 ou 5) a passar pela Flórida foi em 2005 e destruiu muita coisa, entrando pelo Golfo do México.

Furacão Matthew

Foto tirada às 8h00 da sexta-feira pós-furacão. Vista do meu apartamento.

 

Furacão Matthew

Olhando este céu de final de tarde, dá pra imaginar que no dia anterior passou um furacão aqui? Que belo entardecer!

Aprendizado

Algumas coisas de aprendizado tiramos de todo esse processo:

  1. Em geral os sistemas de alerta funcionam bem.
  2. Uma vez alertado, se preparar e seguir as instruções das autoridades pode ser a diferença entre vida e morte, ou entre passar pelo furacão com maiores ou menores perdas.
  3. Você TEM SIM que comprar mantimentos e suprimentos, MESMO que acredite 100% que não será impactado pelo furacão em sua região. E sabe por que? Porque a maior parte da população vai se preparar, e isso significa esgotar estoques de comida e água dos supermercados, gasolina nos postos de gasolina, etc. No dia 9 de outubro, em pleno domingo, ainda faltava água e pão em vários supermercados em que fomos justamente para ver como estava tudo isso. Então, se você não tiver os mantimentos, pode correr o risco de, mesmo sem perdas e restrições de sair de casa com o furacão, não ter o que comprar pra comer perto de você ou não ter como abastecer seu carro pra ir a algum lugar, por exemplo. Esse processo deve ter até um nome, mas eu desconheço; sei que é um processo que de fato existe!

Obviamente ninguém espera passar por um furacão, mas já tendo passado por esta experiência inicial, me sinto mais preparado para futuras ocorrências aqui na Flórida – porque sim, na Flórida, mais dia menos dia você terá um furacão no seu quintal, não há como evitar. Pode demorar anos, décadas, mas eles voltarão, e saber se preparar e como agir pode fazer a diferença. Assim, se você pensa em morar na Flórida, ou vai estar aqui na temporada anual de furacões, espero que esta leitura tenha sido de utilidade pra você!

Abraço e boa sorte!

Felipe

Leia outros textos escritos pelo Felipe:

 

Compartilhe

You Might Also Like

No Comments

Leave a Reply